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Verdade, Edgar Correia
Esse é um valor que, infelizmente, está cada vez mais em desuso. Para mal da actual geração e das gerações vindouras.
Duarte Martins de Carvalho
O Valor da Verdade

 

Qualquer criança, desde muito tenra idade, aprende que deve dizer sempre a verdade, porque mentir é “feio”. No entanto, também desde muito cedo, descobri que o verdadeiro perigo da mentira reside não na mentira em si, mas no ser descoberta.

E, à medida que cresce, vai percebendo que, não sendo desmascarada, a mentira é uma maneira de, com mais facilidade, se chegar às metas traçadas, com muito menos esforço.

Aliás, à medida que o tempo passa, a criança aprende que, mesmo sendo apanhada, se negar sempre a mentira e se disfarçar o embaraço inicial por ser “apanhada”, os pais, os amigos, enfim, todos, acabam por esquecer, e a mentira torna-se verdade ou é pura e simplesmente ignorada e esquecida.

Assim, a criança aprende que a mentira, se calhar, compensa, que lhe permite obter depressa o que, de outro modo, levaria tempo e era mais incerto.

Assim, para vencer e chegar mais longe a criança vai mentido. Mentindo para crescer e para atingir os seus objectivos.

De tal forma se instalou esta ideia de que verdade é apenas a nossa verdade, que hoje ninguém acredita em nada e todos acreditamos em tudo.

Nos tribunais procura-se “uma” verdade, sendo que raramente se encontra alguma.

Na Política, enfim, na Política já quase é vergonhoso ser apanhado a dizer a verdade. Já não se usa.

Tal como a criança que vai contando pequenas mentiras para ver se pega, também na Política, depois de umas pequenas mentirinhas, os “agentes políticos” acabam por tornar-se mentirosos compulsivos, construindo um mundo só deles, onde a incoerência não existe.

E, vejamos bem, estes “agentes políticos”, mais não são do que as crianças que se habituaram a mentir para sobreviver. Na sua grande maioria, sempre viveram da Política e nada fizeram fora dela. Se andarmos para trás veremos os meninos que acabam a Faculdade (quase todos no mesmo sítio, muito embora em dias diferentes) e assumem desde logo, porque o seu curriculum é “invejável”, cargos importantes em grandes empresas públicas, ou em empresas privadas dirigidas por ex-ministros (quase todos também ex-meninos).

Crescem na Política e não vivem fora dela, porque não sabem.

Por isso, porque se habituaram a uma vida fácil, vêm com maus olhos quem, tendo um percurso sério e de trabalho fora da Política, decide, em determinada altura, tornar-se também um “agente político”. E percebe-se.

Quem vive da Política, dos favores e da sua troca, quem hoje está aqui, mas amanhã, se ganhar alguma coisa com isso, estará em outro qualquer sítio, sem olhar a meios sem pensar duas vezes, convive mal ter que concorrer com quem já teve sucesso fora da Política.

Quem só é conhecido porque aparece todos os dias, ou quase, a falar, seja do que for (isso não importa, importa é aparecer), convive mal com quem fala só do que sabe.

Quem não se prepara para nada, por que está sempre preparado para tudo, convive mal com quem quer discutir qualquer questão a fundo, porque a conhece.

Para quem a palavra dada não tem qualquer valor, convive muito mal, acha mesmo estranho, que alguns a cumpram.

Por isso é que continuamos a ter muitos deputados, muitos ministros, secretários de Estado, directores gerais, adjuntos e consultores, mesmo que tenhamos todos a noção de que pouco ou nada fazem.

E já ninguém acha estranho. Criou-se a ideia de que já batemos tão no fundo que já nada importa.

Por isso, já achamos normal que quem fala a verdade seja visto como um animal raro.

E sempre que aparece alguém novo, alguém de fora, alguém que nem precisava da Política para nada, e que – pecado dos pecados – quer falar a verdade e respeita a palavra dada, divertimo-nos a vê-lo passear na via-sacra, para ser crucificado e esquecido.

Afinal, nós que nos habituamos à mentira e aos problemas, também conviveríamos mal com alguém que nos falasse verdade, que nos chamasse à realidade e tentasse resolver os problemas. É que depois deles resolvidos acabam-se as desculpas.

Por mim, tinha alguma curiosidade em saber como seria se um dia parássemos de nos deixar ir e déssemos uma oportunidade a alguém que nos dissesse a verdade, mesmo que não fosse agradável, mesmo que não fizesse o sangue por que todos ansiamos, mesmo que não tentasse apagar fogos com gasolina.

Sempre gostava de ver, neste tempo em que a verdade pouco ou nada vale, se nos habituávamos todos a alguém que nos falasse verdade, que não se alimentasse de sondagens que encomenda para nos tapar os olhos. Se calhar não, não nos conseguiríamos habituar, e por isso é que as coisas não mudam.

Depois dizem que ganham sempre os mesmos…